quarta-feira, 29 de julho de 2015

Meros estranhos.-.01

    E da mesma forma monótona, se inicia mais um dia. Ao acordar, uma dúvida se instalou: por que tudo isso? Por que acordar às 06:30 (06:34, hoje, para falar a verdade)? Por que enfrentar um mundo que não te aceita (não que eu o aceite)? Eu sei, isso parece um discurso de um garoto deprimido pelo Bullying e se martirizando por um peso que nem ser é, porém, se resume a apenas um adolescente com sono, sem vontade alguma de ir à escola!
    Mesmo contra vontade, levantei-me e fui tomar um banho, tentativa falha de fazer-me acordar. Cadê as manhãs lindas e ensolaradas, bem humoradas e leves, animadoras e alegres? Em comerciais de manteiga ou torrada, talvez.
    Engana-se quem acha que estou exagerando, todo esse estresse não se deve apenas às quatro horas sentado em uma carteira, obedecendo (ou nem tanto) a mil e uma ordens, tentando entender o porquê das coisas. É um conceito muito mais complexo, vou dividi-lo em partes.
    Primeira parte do pesadelo escolar: isso é o que chamo de "psicológico em teste" e se resume a parte antes de sair de sua própria casa, onde a preparação psicológica é indispensável para sobreviver ao dia letivo. É necessários bravura e concentração.
  Segunda parte do pesadelo escolar: "o ônibus", espero que tenha soado ameaçador, porque, convenhamos, É! Nesse local você encontrará as mais diversas espécies de ameaças ao bem estar sonoro e visual. Seja forte!
    Terceira parte do pesadelo escolar: "A ESCOLA", se o ônibus deveria parecer ameaçador, essa deveria ser a chefe da máfia toda (se não existia uma máfia, passou a existir)... sobre essa, bom, é cada um por si, espero que tenhamos sorte, pois vamos precisar.
    Quarta parte do pesadelo escolar: "liberdade", sim, L-I-B-E-R-D-A-D-E! Somos dispensados da sede do sofrimento, alegres, mesmo sabendo que no próximo dia tudo começa novamente.
   Canso apenas ao pensar em tudo isso, e lembrando que estou chegando à segunda parte, entro definitivamente em depressão.
    O ponto estava cheio, pessoas dormindo, alegres (não sei por que cargas d'água), e até em estado vegetativo. Quando o ônibus chegou, entrei rapidamente procurando um banco que estivesse totalmente vago, mas acho que todos os que entraram antes de mim pensaram o mesmo, e estavam parcialmente ocupados. A não ser o último banco, que estava totalmente preenchido. Lá é onde o casal diabetes fica. Eles não são gordos, nem doentes, mas sim um mel só... é beijo daqui, declaração de lá, pega no peito, puxa o cabelo, uma loucura! Não que eu observe muito, mas é impossível não notá-los.
    Sentei na primeira opção aceitável que tive, Isabella é seu nome, se não me engano. Ela olhava para a janela, mesmo assim, cumprimentei meio sem jeito:
   -Bom dia.
    Esperei ser ignorado, mas ela virou-se e respondeu:
   -Bom dia.
    Não pude deixar de perceber que de bom pouco tinha em seu dia, estava desanimada, mas isso era a última coisa que desejava transparecer. Olhei para a minha frente e vi uma criança pendurada no banco, encarando-me. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, perdi-me em meus pensamentos.

+++

    Uma nuvem de mau humor havia se instalado em meu corpo, eu estava perdida em meus pensamentos até que um garoto se sentou ao meu lado.
   -Bom dia- disse ele meio sem jeito.
    Pensei seriamente em não respondê-lo, mas ele não tem culpa de absolutamente nada, então respondi brevemente:
   -Bom dia.
    Ele calou-se logo em seguida, ainda bem. Pareceu mergulhar-se em pensamentos e era isso que eu voltaria a fazer. A noite passada ainda está viva, como um filme em minha mente. Eu não sei o que pensar, não sei o que fazer! E pra melhorar tem um dia inteiro de aula.
     Logo chegamos à escola, desembarquei desanimada e fui até o saguão encontrar a Gabi, uma de minhas melhores amigas:
   -Bella! Menina você nem... espera aí, que cara é essa?- perguntou preocupada.
   -Não é nada não, dormi tarde, só isso.
   -Você não me engana. O que ele aprontou dessa vez?
   -Não aprontou nada.
   -Então qual é o problema?- perguntou confusa.
   -Esse é o problema, eu estou sem saber o que fazer Gabi!- falei a deixando mais desnorteada ainda.
   -Desenvolva logo, Isabella!
   -Ontem ele me chamou para sair, e lá pelas tantas me convidou pra conhecer os pais deles em um jantar nesse sábado.
   -O QUÊ? Desde quando isso é um problema?- ficou incrédula.
   -Desde que eu não sei se realmente quero isso pra mim.
   -Você está brincando, né? Esperou isso por TRÊS meses, três meses de desconfiança, briga, pegação, para ficar em dúvida quando ele realmente prova algo pra ti? Era tudo o que você mais queria!
   -Mas...
   -Você disse que amava ele, Bella.
   -Eu já não sei se é amor.- disse baixinho, quase como um sussurro.
    O sinal soou e fomos para a sala de aula.